14 de abril de 1865: um dia que entrou para a história dos Estados Unidos. Munido de uma pistola calibre 44, John Wilkes Booth adentra no Teatro Ford e invade o camarote aonde se encontrava o presidente Abraham Lincoln. Determinado, acerta um único tiro em sua cabeça. Após o ato, salta no palco e grita a célebre expressão: “Sic semper tyrannis!” (latim de “Isso sempre acontece com os tiranos). Apesar de ter quebrado a perna, ele consegue escapar no momento, sendo encurralado, baleado e morto 12 dias após.
Ao entrar no Teatro Bruno Kiefer, para assistir a peça Reator, e tendo lido a sinopse do que se tratava, talvez o público sinta inicialmente a sensação de estar assistindo ao espetáculo errado. Com uma trilha que embala, em clima de “Fui numa festa cheia de cuba libre” e um senhor vestindo traje elegante recepcionando os convidados, tudo indicava que as próximas horas seriam repletas de música e interatividade. Entretanto, percebe-se que o câmera que estava filmando o evento trajava um uniforme da Ku Klux Klan. Alguma coisa estava fora do contexto. Ou não.
Eu confesso, e aqui assumo a minha ignorância, que só conhecia Walney Costa de nome, pelos ótimos comentários acerca de sua carreira. E a única coisa que posso dizer é como me arrependo de não ter assistido nenhum espetáculo desse fabuloso artista anteriormente. Escrita, dirigida e atuada por ele, a peça traça um painel associando o assassinato de Lincoln por John Wilkes Booth com diversas situações onde impera a supremacia capitalista, o massacre de animais, as guerras bestiais, as promessas não cumpridas e a total demagogia na política.
Walney é soberano e virtuoso do início ao fim. Vai da sutileza e do sarcasmo ao ápice com uma organicidade ferrenha absurda. Nada é gratuito, nada é desperdiçado, TUDO se associa. A trilha sonora (de sua autoria), ora enaltece o texto, ora surge como contraponto. E com isso ele clareia a mente do espectador, como um “starte”, uma epifania, em um meio rodeado de “facebook” e twitter”, aonde brotam informações desnecessárias e vazias, aonde nos esquecemos muitas vezes que sim, o ser humano é malévolo por natureza, sim, a política definitivamente não presta, sim, somos eternos escravos do sistema.
Surge o desconforto latente. Mas necessário. Aos meus colegas, amigos e jovens atores, se me permitirem, lhes faço uma recomendação: não percam por nada essa peça quando reestrear.
por Gustavo Saul

